Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subiu
à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas e direcionou elogios ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), parte dos analistas internacionais
enxergaram uma possibilidade de conciliação diplomática entre Brasil e Estados
Unidos.
Ao assumir a palavra na reunião da ONU ocorrida em 23 de setembro, o americano afirmou ter combinado um encontro com Lula para a semana seguinte e disse que os dois tiveram “excelente química” em breve diálogo. Embora nenhuma reunião tenha sido oficialmente confirmada, a provável escolha de uma “zona neutra” como palco para o diálogo tem ganhado força entre as especulações sobre o encontro.
“Não tivemos muito tempo para conversar, foram cerca de 20
segundos, mas ainda bem que eu esperei. Nós concordamos em nos encontrar na
próxima semana. Ele [Lula] me pareceu um homem muito legal. Eu gostei dele, e
ele gostou de mim. E eu só faço negócios com pessoas de quem eu gosto”.
A escolha de um local que não seja o Brasil ou os Estados
Unidos visa remover a percepção de vantagem de qualquer um dos lados e
destravar o debate sobre a tensa guerra tarifária deflagrada por Trump –
responsável por impor uma sobretaxa de 50% aos produtos brasileiros.
Ideologicamente distante de Lula, o americano justificou a medida como uma
resposta à suposta perseguição política contra o aliado Jair Bolsonaro (PL),
recentemente julgado e condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de
Estado.
Caminho do meio
Segundo explica o pesquisador de ciência política e relações
internacionais da USP (Universidade de São Paulo) Paulo Bittencourt, a seleção
de um terceiro país como sede do encontro entre dois líderes é uma prática
comum na diplomacia. Esse costume é utilizado quando há pontos de tensionamento
mais contundentes entre as nações envolvidas, com intenção de evitar que um dos
chefes seja visto como “anfitrião”.
O próprio Donald Trump já realizou encontros com outros
líderes fora do território estadunidense. Durante o primeiro mandato, por
exemplo, ele se reuniu com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, em duas
ocasiões: a primeira vez em Singapura (2018) e a segunda no Vietnã (2019).
Além disso, o pesquisador lembra que o conceito de
“neutralidade”, no contexto de política internacional, é carregado de sentido,
não significando que um país possua uma postura imparcial. Em termos
diplomáticos, países neutros são aqueles não alinhados a algum dos blocos de
disputa.
“Um local considerado ‘neutro’ se refere a um país que não
esteja diretamente na rota de colisão dos dois países envolvidos”, explica
Bittencourt.
Lista de opções vai de Ásia a Europa
Caso o encontro seja realmente presencial – como já
sinalizado por Lula – uma das possibilidades de sede seria a Europa. No dia 13
de outubro, o mandatário brasileiro viajará a Roma, na Itália, para participar
de um evento da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Já na rota do
petista, a cidade foi enxergada como uma possibilidade interessante para a
conversa.
Conforme analisa Bittencourt, a escolha de Roma como palco
do encontro seria mais favorável a Lula, uma vez que Trump tem se afastado dos
aliados europeus desde o primeiro mandato.
“Os Estados Unidos têm se afastado de parceiros históricos
como os países europeus. Então, um encontro na Europa talvez colocasse os dois
em uma situação de aparente ou de percebida desvantagem, já que na Europa o
regime do Trump é extremamente criticado”.
Em contrapartida, a imagem do Brasil frente às nações
europeias tem se destacado sob a gestão de Lula. Existe uma certa proximidade
do governo federal com alguns líderes do continente, como o presidente francês
Emmanuel Macron.
Por sua vez, a realização do encontro em solo americano,
como o Salão Oval ou Mar-a-Lago, é vista com temor e desvantagem pela
diplomacia brasileira. Há receio por parte do Brasil de que a reunião no
território dos EUA pudesse repetir a humilhação pública já sofrida por líderes
de outros países – com destaque para o constrangedor encontro entre Trump e o
presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.Uma outra possibilidade apontada com
preferência pelo Brasil é Kuala Lumpur, na Malásia. O presidente Lula também
viajará ao país em outubro para a cúpula da Associação das Nações do Sudeste
Asiático (ASEAN), vendo a Ásia como opção favorável pela “imparcialidade”
frente à disputa.
Da mesma forma, o professor de Relações Internacionais da
PUC-SP Arthur Murta reconhece que a escolha de uma zona “neutra” traria
benefícios mútuos para os países, evitando uma imagem negativa de ambos os líderes.
“A escolha de um local neutro seria importante para a imagem
brasileira porque não pareceria que o Brasil está se submetendo aos Estados
Unidos – e seria importante também para os Estados Unidos para mostrar que está
dialogando com o Brasil sem nenhuma estrutura opressora.”
Muita simbologia, pouca prática
Para além das vantagens e desvantagens enfrentadas por cada
uma das duas nações, o encontro serve para amornar as relações políticas e sinalizar
postura diplomática de EUA e Brasil. O professor Murta ressalta ainda o teor
formal desse tipo de reunião, que frequentemente adota mais valor simbólico do
que material.
“Na diplomacia, esses encontros são muito mais para selar
acordos e passar mensagens do que necessariamente para negociação. Não é o Lula
que está na reunião e vai negociar com o Trump. São as equipes que vão fazer a
negociação e o encontro dos líderes é só o momento da foto, do diálogo pontual,
é o momento da simbologia”, expõe Murta.
Na mesma linha, Bittencour lembra que o simples aceno para
que os dois líderes possam se encontrar já é, por si só, “uma conquista
diplomática para ambos os lados”, visto que nenhum está satisfeito com os rumos
das relações bilaterais. As análises, desse modo, devem direcionar atenção para
os trâmites pós-encontro, que definirão os ânimos do futuro.
“Eu acho que a principal precaução é manter as expectativas
baixas. Acredito que é uma negociação muito difícil e que qualquer expectativa
de reversão ou de mudança drástica não me parece realista. Contudo, é
importante lembrar que a incerteza é uma das armas com que o Trump trabalha”,
pondera o pesquisador.
ACOMARCA com informações da ISTOÉ

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